Diante dos desafios cada vez mais evidentes impostos pela crise climática, Minas Gerais começa a colocar em prática iniciativas concretas voltadas à convivência com a seca prolongada e com os eventos extremos de chuva. Uma dessas ações é o projeto Construção de Barraginhas e outras Práticas Mecânicas de Conservação de Água e Solo, que avança para uma nova etapa e passará a ser apresentado em forma de vitrines demonstrativas em diferentes regiões do Estado.
A iniciativa é fruto direto de sugestões apresentadas durante o Seminário Técnico Crise Climática em Minas Gerais – desafios na convivência com a seca e a chuva extrema, promovido pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O projeto tem como objetivo central mostrar, de forma prática e acessível, soluções eficientes para captação da água da chuva, recarga do lençol freático, conservação do solo e recuperação ambiental em áreas rurais.

As chamadas “vitrines de barraginhas” funcionarão como unidades demonstrativas instaladas em áreas estratégicas do meio rural, permitindo que produtores, gestores públicos, lideranças comunitárias e a população em geral visualizem, no próprio território, práticas simples, de baixo custo e alto impacto ambiental e produtivo. A proposta é que essas experiências sirvam de modelo e sejam replicadas em outras regiões de Minas.
Barraginhas e conservação ambiental
As barraginhas são pequenas bacias escavadas no solo, projetadas para reter a água das enxurradas, reduzindo a velocidade do escoamento superficial e facilitando a infiltração da água no solo. Esse processo contribui diretamente para a recarga do lençol freático, o fortalecimento das nascentes e a redução de processos erosivos.
Além das barraginhas, o projeto contempla outras práticas mecânicas e ambientais, como a construção de terraços, o cercamento e a recuperação de nascentes, a proteção de matas ciliares e de topo de morro, bem como a adequação ambiental de estradas vicinais — pontos críticos no processo de assoreamento de rios e córregos.
Três regiões, diferentes realidades
No próximo ano, o projeto será implantado inicialmente em três macrorregiões mineiras, escolhidas por apresentarem diferentes condições climáticas, biomas e desafios relacionados ao acesso à água. As vitrines serão instaladas nos municípios de Mirabela, no Norte de Minas; Virgem da Lapa, no Vale do Jequitinhonha; e Periquito, na região do Rio Doce.
Cada uma dessas localidades representa um cenário distinto do Estado. Mirabela simboliza o semiárido mineiro, com predomínio do cerrado e histórico de escassez hídrica. Virgem da Lapa está situada em uma área de transição entre cerrado e mata atlântica, enquanto Periquito, inserido na Bacia do Rio Doce, enfrenta sérios problemas de degradação do solo em área de mata atlântica.
A escolha dos municípios foi realizada por um comitê técnico, que levou em consideração critérios como representatividade ambiental, facilidade de acesso por rodovias estratégicas e potencial de despertar o interesse de produtores e gestores de toda a macrorregião.
Parcerias institucionais e recursos
O projeto conta com uma ampla rede de parceiros institucionais. Além da Consultoria da ALMG, integram o comitê técnico a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), a Embrapa Milho e Sorgo, a Associação Mineira de Municípios (AMM) e a Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais (Faemg).
Os recursos para implantação das vitrines são oriundos do Programa de Conversão de Multas Ambientais (Pecma), regulamentado em fevereiro de 2025, a partir da Lei nº 24.944/2024, de iniciativa da própria Assembleia. A norma permite a conversão de até 50% do valor das multas ambientais simples em projetos de preservação e recuperação ambiental. Do total convertido, 20% têm sua destinação definida pela ALMG.
Para esta primeira etapa, serão destinados R$ 236,6 mil para cada município, por meio de convênios firmados pela Seapa. O investimento busca garantir a implantação completa das práticas em microbacias hidrográficas selecionadas, concentrando as ações em áreas de maior visibilidade e impacto.
Resultados do seminário sobre a crise climática
O projeto das vitrines de barraginhas é um dos desdobramentos do Plano Legislativo de Articulação e Monitoramento de Ações Relacionadas à Crise Climática (Plam Crise Climática), criado a partir do seminário promovido pela ALMG em 2024. O evento mobilizou 477 parceiros, entre órgãos públicos, entidades e representantes da sociedade civil, e percorreu diversas regiões do Estado para identificar problemas e soluções relacionadas às mudanças climáticas.
Segundo o presidente da ALMG, deputado Tadeu Leite (MDB), a iniciativa comprova a importância de ouvir as comunidades locais. “Estamos vendo agora, na prática, como soluções viáveis apresentadas pelas próprias regiões podem ser aplicadas no dia a dia das pessoas, fortalecendo a resiliência climática de Minas”, destacou.
Efeito multiplicador e política continuada
A expectativa é que as vitrines tenham efeito multiplicador, funcionando como espaços de capacitação e inspiração para técnicos, produtores e gestores de outros municípios. Antes do início das obras de campo, a Escola do Legislativo da ALMG, em parceria com Emater-MG, Embrapa e Senar, vai oferecer cursos de capacitação, inclusive a distância, sobre as práticas de conservação de água e solo.
De acordo com a Emater-MG, um dos diferenciais do projeto é a concentração de várias ações de conservação em uma mesma microbacia, permitindo a visualização integrada dos resultados ambientais e produtivos. A intenção é que a iniciativa se consolide como uma política pública continuada, ampliando o alcance das tecnologias sociais voltadas à adaptação climática.
Convivência com a seca e com a chuva
Especialistas destacam que a degradação ambiental, causada pelo desmatamento, compactação do solo, uso inadequado de máquinas e manejo incorreto das estradas vicinais, interfere diretamente no ciclo da água. A consequência é a redução da infiltração, o assoreamento dos cursos d’água e a diminuição da disponibilidade hídrica, tanto em períodos de seca quanto de chuvas intensas.
Nesse contexto, as barraginhas e demais práticas propostas surgem como soluções eficazes para reverter parte desse processo. Ao reduzir a velocidade das enxurradas e aumentar a infiltração, essas estruturas contribuem para a recuperação das áreas produtivas, a proteção dos mananciais e a melhoria da qualidade de vida no campo.
Com a implantação das vitrines de barraginhas, Minas Gerais dá um passo importante na construção de estratégias concretas de adaptação à crise climática, mostrando que é possível aliar conservação ambiental, produção rural e desenvolvimento sustentável.


