Assembleia de credores aprova extensão para ajustes em proposta que inclui fundos regulados como instrumento de quitação de dívidas; vendas de ativos seguem em curso
Em uma decisão estratégica que pode redefinir os rumos da sua reestruturação financeira, a Coteminas – uma das maiores empresas do setor têxtil brasileiro – obteve aprovação para um novo prazo de aperfeiçoamento do seu plano de recuperação judicial, durante Assembleia Geral de Credores (AGC) realizada nesta quinta-feira (12).
Com dívidas superiores a R$ 2 bilhões, a companhia busca agora tempo adicional para ajustar sua proposta inicial, visando equilibrar os interesses dos diferentes perfis de credores e aumentar a viabilidade da recuperação do grupo. A ata da assembleia, obtida pelo O Fator, foi assinada por representantes das quatro classes de credores previstas na legislação recuperacional, incluindo instituições financeiras, empresas comerciais e trabalhadores.
Modelo inovador com fundos regulados
A proposta em discussão prevê um modelo inédito de reestruturação baseado na criação de fundos regulados, como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs). Nessa estrutura, ativos da Coteminas seriam transferidos para esses veículos de investimento, que passariam a ser controlados pelos próprios credores, proporcionalmente aos valores devidos.
O plano desenhado pela Coteminas apresenta modalidades diferenciadas de pagamento conforme a categoria e o valor dos créditos:
Trabalhadores com créditos de até cinco salários mínimos receberiam os valores à vista.
Débitos maiores seriam parcelados, com condições específicas conforme o tipo de credor.
Os credores quirografários – aqueles sem garantias reais – teriam três opções:
Recebimento único com valor limitado;
Conversão dos créditos em cotas de fundos;
Parcelamento de longo prazo com correção limitada.
A proposta também confere aos credores direitos de governança dentro dos fundos, oferecendo maior transparência e participação ativa no processo de recuperação.
Credores divididos em quatro classes
Conforme determina a Lei de Recuperações Judiciais e Falências, a assembleia reuniu os credores em quatro classes distintas:
Classe I – Trabalhistas: reúne os ex-funcionários e empregados atuais com créditos reconhecidos.
Classe II – Credores com garantia real: inclui Banco do Brasil e Louis Dreyfus Company Brasil, com direito preferencial na restituição por possuírem garantias constituídas.
Classe III – Credores com privilégio geral: novamente com Banco do Brasil e BTG Pactual, representando uma faixa com prioridade sobre os quirografários.
Classe IV – Quirografários: grupo mais amplo e menos garantido, com empresas como Express Lions Transportes e Lions Express.
A participação ativa de todas as classes sinaliza a complexidade do processo e a necessidade de um plano que atenda à diversidade de interesses e condições.
Justiça autoriza vendas estratégicas de ativos
Enquanto trabalha na reformulação do plano, a Coteminas segue realizando operações de liquidação de ativos, autorizadas judicialmente, para garantir liquidez imediata ao caixa da empresa.
Dentre as ações já validadas, destaca-se:
A dação em pagamento de um imóvel em Vinhedo (SP) ao Banco Fibra, avaliada em R$ 64,1 milhões – a maior operação individual até o momento;
A venda da participação acionária na empresa A11L Tecnologia, por R$ 12,08 milhões;
A alienação da marca MMartan, tradicional no segmento de cama, mesa e banho, como parte da estratégia de desmobilização de ativos não essenciais.
Essas transações foram acompanhadas por laudos técnicos de avaliação e contaram com a anuência do Ministério Público, atendendo às exigências legais de transparência e interesse público.
Próximos passos
Com a concessão do novo prazo, a Coteminas terá a missão de refinar e viabilizar juridicamente o modelo dos fundos regulados, alinhando expectativas dos credores e requisitos legais. O juiz Murilo Silvio de Abreu, da 2ª Vara Empresarial de Belo Horizonte, segue à frente do processo, conduzido pelos escritórios Bernardo Bicalho Advogados e TWK Advogados.
A expectativa é que o plano aperfeiçoado seja reapresentado aos credores em uma nova assembleia nas próximas semanas. A adesão ampla ao modelo inovador será decisiva para o futuro da Coteminas, que tenta se reerguer em meio a um cenário desafiador para a indústria têxtil nacional.
Entenda a Recuperação Judicial da Coteminas
Dívida estimada: R$ 2 bilhões
Modelo proposto: Fundos regulados (FIDC e FII)
Objetivo: Quitar dívidas com maior transparência e participação dos credores
Maiores credores: Banco do Brasil, BTG Pactual, Louis Dreyfus
Ativos vendidos: Imóvel em Vinhedo, participação na A11L Tecnologia, marca MMartan


