Montes Claros guarda, em sua memória histórica, a marca de um episódio que transcende fronteiras e gerações. Cinco militares montes-clarenses estiveram entre os brasileiros que participaram de uma das mais emblemáticas operações da Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a Segunda Guerra Mundial: a conquista de Monte Castelo, encerrada em 21 de fevereiro de 1945. A vitória representou um divisor de águas na campanha aliada na Itália e permanece como um dos feitos mais reverenciados das Armas Nacionais.
O confronto, travado entre 24 de novembro de 1944 e 21 de fevereiro de 1945, foi caracterizado por sucessivas investidas, condições climáticas severas e forte resistência inimiga. Monte Castelo, posição estratégica ocupada pelas forças alemãs, constituía um ponto-chave no sistema defensivo nazista. Sua tomada significou não apenas uma vitória tática, mas um avanço simbólico para as tropas brasileiras, que enfrentaram um cenário de extrema complexidade militar.
Protegidas por campos minados, obstáculos e privilegiadas posições de tiro, as forças alemãs impuseram enormes desafios às tropas aliadas. Ainda assim, os pracinhas brasileiros demonstraram persistência, coragem e capacidade de adaptação em meio às adversidades impostas pelo inverno europeu, pela geografia montanhosa e pela intensidade dos combates.
Montes Claros presente na história mundial
De acordo com o historiador Júlio César Guedes, pesquisador de história militar e criador do canal “Sala de Guerra”, cinco militares naturais de Montes Claros integraram o contingente brasileiro envolvido na batalha: Sargento João Pereira de Araújo, Cabo Adão Veloso, Cabo Geraldo Martins Santana, Soldado Benjamin Ribeiro da Cruz e Soldado Felisberto Rodrigues Soares.
Segundo o pesquisador, a maioria dos combatentes era formada por reservistas, com exceção do Cabo Geraldo Martins Santana, que já se encontrava em serviço ativo no Exército à época da convocação. “Todos foram encaminhados para a Vila Militar, no Rio de Janeiro, onde aguardaram o embarque para o teatro de operações europeu”, explica.
A mobilização brasileira para a guerra representou, para milhares de jovens, uma ruptura abrupta com a rotina civil. Deixaram famílias, carreiras e expectativas pessoais para integrar uma missão internacional de grandes proporções. No caso dos montes-clarenses, dois militares seguiram no primeiro escalão expedicionário — Cabo Adão Veloso e Cabo Geraldo Martins Santana — desembarcando na Itália em julho de 1944. Os demais chegaram ao continente europeu em setembro do mesmo ano, integrando o segundo escalão.
Atuação em diferentes frentes de combate
A participação dos militares montes-clarenses refletiu a diversidade operacional da FEB. Conforme detalha Júlio César Guedes, o Soldado Benjamin Ribeiro da Cruz atuava na artilharia divisional, setor responsável pelo suporte de fogo às tropas de infantaria. “Ele operava junto aos canhões da divisão, desempenhando função essencial na sustentação das ofensivas”, esclarece.
Os demais militares estavam vinculados à infantaria, linha de frente dos combates terrestres. Soldados que avançavam a pé, enfrentando diretamente as posições inimigas, muitas vezes sob intenso fogo cruzado e em terrenos de difícil progressão. A infantaria brasileira foi protagonista em diversas ações decisivas ao longo da campanha italiana.
Sacrifício e legado
Dos cinco militares montes-clarenses, houve uma baixa durante os combates. O Cabo Geraldo Martins Santana morreu em ação, tornando-se símbolo do sacrifício máximo oferecido pelos brasileiros na guerra. Sua memória permanece reverenciada em Montes Claros, onde foi erguido um monumento no 55º Batalhão de Infantaria, homenagem que perpetua sua bravura e dedicação.
“O Cabo Geraldo Santana representa não apenas a história militar, mas o vínculo entre Montes Claros e um dos episódios mais significativos do século XX”, destaca o historiador. “A participação desses pracinhas projeta o nome da cidade em um contexto histórico global.”
Memória que atravessa gerações
A conquista de Monte Castelo é lembrada como um dos momentos mais marcantes da atuação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Mais do que uma vitória militar, tornou-se símbolo de resistência, disciplina e compromisso com ideais de liberdade
Para Montes Claros, a presença de seus filhos nesse capítulo da história mundial reforça a importância da preservação da memória histórica. O reconhecimento dos combatentes representa um gesto de valorização não apenas do passado, mas dos princípios que moldam a identidade coletiva.
Décadas após o término do conflito, os pracinhas continuam sendo lembrados como exemplos de coragem e resiliência. Suas trajetórias permanecem vivas na história, na cultura e na memória das comunidades que ajudaram a construir — entre elas, Montes Claros.


