PAULA PEREIRA
Há trajetórias que parecem se construir no compasso da insistência. A vida de Charles Caldeira Veloso é uma delas. Ele costuma repetir uma frase que carrega desde a juventude: “o importante não é só bater na porta, mas persistir em bater até que ela se abra.” Ao longo do tempo, essa máxima guiou o menino de Nova Fátima, no Norte do Paraná, que cresceu entre plantações de café, andou por garimpos e fazendas, atravessou estados em busca de oportunidades e, por fim, fincou raízes em Montes Claros — onde se tornaria contador, empresário, dirigente esportivo, líder comunitário e um dos mais influentes presidentes da história do Max Min Clube.
A infância simples e feliz no Paraná
Charles nasceu em Nova Fátima e viveu ali até os 15, 16 anos. Vem de uma família humilde, marcada pelo trabalho na roça e pela inquietude do pai, um homem aventureiro e administrador de fazendas — figura que, sem perceber, moldou a forma como o filho entenderia o mundo.
“Eu tive a melhor infância que um menino podia ter”, recorda. Morou em fazenda, brincou solto, cercado de natureza e liberdade. Na adolescência, mudou-se para Borrazópolis, também no Paraná, onde viveu anos que define como “marcantes”: escola, amigos, futebol e muito truco. “Gostava de estudar, mas gostava mais ainda de jogar truco”, diz, rindo ao reviver os tempos de juventude.
O vai e vem até Minas Gerais
Em 1979, a mãe decidiu se mudar para Montes Claros, onde os pais dela já viviam. Charles veio junto, mas não se adaptou de imediato: voltou sozinho para o Paraná e, por algum tempo, os caminhos da vida correram paralelos entre os dois estados. Só entre 1981 e 1982 retornaria definitivamente ao Norte de Minas — uma decisão que mudaria para sempre sua história.
O início da vida profissional foi tão intenso quanto sua juventude itinerante. Ele trabalhou na Biobrás, seguiu com o pai para Aquidauana, no Pantanal, onde este administrava uma fazenda. Depois, voltou ao Paraná, tentou concursos, buscou emprego até mesmo na Bahia — “mas tudo parecia me empurrar de volta para Montes Claros”, diz. Essa porta finalmente se abriu quando foi chamado no concurso do Banco Nacional.
Banco Nacional e a virada para a contabilidade
No Banco Nacional, viveu anos de aprendizado e reconhecimento. Chefe de seção até 1988, testemunhou o auge da instituição na cidade. Depois, iniciou sua carreira na contabilidade, orientado pela sogra, a professora e contadora Josete Campos. Trabalharam juntos até que ele assumiu o escritório.
“Já são mais de 36 anos dedicados à contabilidade. É uma profissão desafiadora, mas que me realiza profundamente”, afirma.
Antes disso, porém, viveu uma aventura decisiva: trabalhou no garimpo, no Pará. A experiência foi interrompida por problemas de saúde, mas o marcou com a dureza da vida e o senso de que era preciso agarrar as oportunidades antes que elas deslizassem pelos dedos.
O pai, o homem e os três diamantes da vida

Charles foi pai pela primeira vez em 1988, com o nascimento de Tiago. Depois vieram Camila e Gabriel. Ele os chama de “meus diamantes”, tesouros que não encontrou no garimpo, mas que a vida lhe entregou em Montes Claros.
Tiago trabalha como contador com ele no escritório. Camila é arquiteta e mora nos Estados Unidos há 13 anos e atua na Amazon, em Seattle. Gabriel é médico em Viçosa. “Amo amar e saber que sou amado”, diz com emoção. Ele também confessa um desejo: tornar-se avô. “Dizem que é melhor ainda que ser pai. Estou esperando esse momento.”
Do menino das festas beneficentes ao empresário da noite
Ainda adolescente, Charles ajudava o padre de sua cidade natal nas festas beneficentes — muitas delas terminavam em animados bailes, onde descobriu o gosto pela vida noturna. Anos depois, já estabelecido em Montes Claros, concretizou esse antigo fascínio criando o Gold Club, uma das casas noturnas mais elegantes da cidade. Também investiu no comércio com a Noiva Bellah, especializada em artigos para casamentos.
Max Min Clube: A história de uma vida
Se há um lugar em Montes Claros onde Charles construiu não apenas projetos, mas uma parte de si mesmo, esse lugar é o Max Min Clube. Integrante da diretoria por mais de dez anos, já ocupou praticamente todos os cargos — diretor de futebol, financeiro, vice-presidente e, hoje, presidente em seu terceiro mandato.
“O clube é minha casa. Vivo mais tempo lá do que em casa. O que mais valorizei sempre foram as amizades”, afirma.
Sua primeira gestão, iniciada em 2014, foi marcada por obras estruturantes, como a revitalização completa da lagoa — que ganhou pista de caminhada, pedalinhos, cascata, pergolados e criatório de peixes — além da construção do Estádio Caldeirão e da modernização da academia.
A maior crise da história: A pandemia
Em 2020, Charles retornou à presidência e encontrou o maior desafio de sua trajetória: a pandemia da Covid-19. O clube fechou, a inadimplência chegou a 80%, as receitas despencaram e muitos temeram o pior.
Ele assumiu sozinho a responsabilidade.
Renegociou contratos, buscou apoio governamental, evitou demissões sempre que possível e implantou um modelo rigoroso de transparência — todas as despesas passaram a ser publicadas no site oficial. “Nenhuma obra foi cancelada. Apenas adiada. Era preciso sobreviver.”
A retomada: modernização, sustentabilidade e expansão
Com a reabertura autorizada pela Prefeitura, Charles reorganizou equipes, recontratou funcionários e retomou o planejamento adiado pela crise. Sob sua liderança, o Max Min passou pela maior modernização de sua história.
Entre as principais entregas e investimentos estão a construção da primeira piscina de ondas de Montes Claros, investimento de R$ 2 milhões; nova quadra de futevôlei, com bar e banheiros; ampliação e qualificação da academia; cronograma robusto de manutenção; instalação de usina fotovoltaica, uma das maiores já implantadas em clubes privados no Brasil.
Equilíbrio financeiro e valorização da cota: um marco
Uma das estratégias mais elogiadas de sua gestão é a valorização sustentável da cota social. Em 2014, o valor era de cerca de R$ 1.500. Em poucos anos, saltou para a casa dos R$ 30 mil — resultado de credibilidade, investimentos e segurança financeira.
Um líder que aprendeu com a vida
Além do clube e da contabilidade, Charles é diretor da Sicoob Montes Claros há cinco anos, experiência que reforça seu olhar comunitário e seu apreço pelas relações humanas.
“Ver as pessoas crescerem me dá prazer. Ajudar alguém a prosperar, abrir portas, oferecer oportunidades — isso é o que realmente vale a pena”, resume.
O legado em construção
Ao olhar para sua trajetória, Charles afirma viver “um dos momentos mais felizes” da vida. Sabe que cada obra entregue, cada crise vencida e cada laço construído forma um legado que ultrapassa o cargo que ocupa. Um legado de comunidade, de resiliência e de afeto.
E, como sempre repetiu, foi batendo à porta — e insistindo — que o menino de Nova Fátima encontrou, em Montes Claros, o lugar onde sua história escolheu florescer.








