O avanço das ondas de calor e o aumento progressivo das temperaturas em diversas regiões do mundo têm provocado efeitos que vão muito além do desconforto físico. Pesquisas recentes indicam que o calor extremo também compromete de forma significativa a saúde mental e a capacidade cognitiva, afetando funções essenciais do cérebro como atenção, memória, raciocínio e tomada de decisões.
Um estudo publicado em 2025 pela revista científica Archives of Public Health aponta que a exposição frequente a dias de calor intenso está diretamente associada à queda no desempenho cognitivo e ao aumento de sintomas depressivos, especialmente em adultos e idosos. De acordo com a pesquisa, períodos prolongados de altas temperaturas dificultam processos de aprendizagem, reduzem a concentração e podem contribuir para quadros de ansiedade e depressão, reforçando que o aquecimento global representa um risco crescente não apenas ao meio ambiente, mas também à saúde cerebral da população.
A neuropsicóloga Martha Valeria Medina Rivera, da NeuronUP, explica que o cérebro é um dos órgãos mais sensíveis ao estresse térmico. “Quando somos expostos a temperaturas elevadas, o corpo aciona mecanismos de emergência para manter a temperatura interna estável. Esse processo exige um grande esforço fisiológico e energético, o que acaba desviando recursos importantes do funcionamento cerebral”, esclarece a especialista. Segundo ela, esse desequilíbrio pode resultar em fadiga mental, irritabilidade, lapsos de memória e redução da capacidade de concentração.
Impactos diretos no comportamento e na tomada de decisões
Estudos mostram que o calor afeta diretamente as funções executivas do cérebro, responsáveis pelo planejamento, controle de impulsos, flexibilidade cognitiva e tomada de decisões. Em situações de estresse térmico, tarefas que exigem atenção prolongada, raciocínio lógico ou resolução de problemas tornam-se mais difíceis. Isso ajuda a explicar o aumento de erros, esquecimentos e decisões impulsivas em períodos de calor intenso.
Além disso, o estresse provocado pelas altas temperaturas pode agravar quadros de sofrimento psíquico, como ansiedade, irritabilidade e depressão, especialmente em pessoas que já apresentam algum grau de vulnerabilidade emocional.
Grupos mais vulneráveis exigem atenção especial
A exposição ao calor não afeta todas as pessoas da mesma forma. Crianças e idosos estão entre os grupos mais vulneráveis. Nas crianças, o cérebro ainda está em fase de desenvolvimento, o que torna os impactos do calor potencialmente mais prejudiciais ao aprendizado e à atenção. Já nos idosos, a menor capacidade de adaptação fisiológica ao calor e a redução da chamada “reserva cognitiva” aumentam o risco de prejuízos à autonomia e à qualidade de vida.
Diante desse cenário, especialistas defendem a adoção de estratégias preventivas específicas para cada faixa etária, com ambientes adequadamente ventilados ou climatizados, oferta constante de líquidos e estímulo ao descanso.
Quatro dicas para reduzir os impactos do calor na saúde mental
Com o objetivo de minimizar os efeitos do calor extremo sobre o cérebro, a neuropsicóloga Martha Valeria Medina Rivera destaca quatro orientações práticas que podem ser adotadas no dia a dia:
1. Organize tarefas cognitivas para os horários mais frescos
Atividades que exigem maior concentração, como estudos, trabalhos intelectuais ou decisões importantes, devem ser realizadas preferencialmente no início da manhã ou à noite. “Esses períodos costumam ser mais amenos e favorecem o melhor funcionamento cognitivo”, orienta.
2. Mantenha o cérebro ativo com estímulos cognitivos
Exercícios mentais, jogos de raciocínio, leitura, treinamentos de memória e atenção ajudam a fortalecer as funções cognitivas. Segundo a especialista, “o treinamento específico de habilidades como atenção, memória e funções executivas melhora a eficiência do cérebro e sua capacidade de adaptação ao estresse térmico”.
3. Redobre os cuidados com crianças e idosos
É fundamental garantir hidratação constante, pausas para descanso e ambientes confortáveis. Em escolas e residências, a climatização adequada pode fazer a diferença para reduzir os impactos do calor sobre o aprendizado, a atenção e o bem-estar.
4. Invista em terapia neurocognitiva
A terapia neurocognitiva surge como uma importante aliada na proteção da saúde cerebral. “Por meio de intervenções direcionadas, é possível fortalecer o funcionamento cognitivo e reduzir os prejuízos causados pelo calor extremo, promovendo mais qualidade de vida”, conclui Martha.
Diante do cenário de mudanças climáticas e aumento das temperaturas, especialistas reforçam que cuidar da saúde mental e cognitiva deve ser parte das estratégias de adaptação ao calor. Medidas simples, aliadas à conscientização, podem ajudar a preservar o equilíbrio emocional e o bom funcionamento do cérebro mesmo nos dias mais quentes.


