Adelaide Valle Pires
Psicóloga por formação e arqueóloga de coração
Hoje o professor Pequi chegou sorrindo e me perguntou:
— Então, Adelaide, descobriu mais alguma coisa sobre si mesma?
Respirei fundo e respondi:
— Descobri que não gosto da dependência… mas também não gosto da independência.
Gosto mesmo é da interdependência.
O professor ajeitou o chapéu e me olhou com aquele ar de quem sabe que vem filosofia pela frente.
— É o mesmo equilíbrio que há entre o sol e o pequizeiro — disse ele. — Um não sobrevive sem o outro, mas cada um cumpre o seu papel com brilho próprio.
Sorri.
Tenho visto muitas postagens sobre como transformar seu livro em um best-seller.
Nunca quis um best-seller.
O que sempre quis foi um best Cia.
O professor arqueou as sobrancelhas, curioso:
— Best Cia? O que é isso?
Expliquei:
— É o estar junto.
O “Cia” vem de companhia, mas também de comunicação, confiança, comprometimento.
É quando o conhecimento deixa de ser produto e vira encontro — conversas das tardes quentes.
Lembrei-me, então, da filosofia de Michel Serres, que dizia:
“Se eu tenho um euro e você tem um pão, trocamos e cada um fica com o do outro.
Mas se eu tenho uma ideia e você tem outra, quando trocamos, cada um fica com duas.”
Sabe, é disso que gosto: de crescimento com partilha.
E penso que tenho vivido um pouco disso com os feedbacks que chegam até mim a respeito do meu livro.
Sinto que estou compartilhando ideias, gerando vínculos — não de dependência, mas de interdependência.
O professor Pequi me olhou com ternura. Nesse momento, percebi quem é o professor Pequi:
é aquele mestre que mora dentro — o que às vezes fala com a voz dos meus netos, às vezes com a do meu mentor, às vezes até com a da tecnologia que insiste em me desafiar.
Ele é a própria personificação da interdependência.
O professor Pequi está em todos.
Na casca, ele é o universo — o todo que nos envolve e ensina através da vida.
Na polpa dourada, ele é o calor dos vínculos — família, amigos, mestres e encontros que nos aproximam.
E, no caroço, ele é o eu profundo — a semente da vida interior, onde mora o aprendizado silencioso.
Aí me senti apta a responder à pergunta inicial.
O que realmente me move é a interdependência — o aprender com o outro sem perder de mim, o caminhar junto sem deixar de caminhar por dentro.
E eu pensei em como tudo o que faço — escrever, criar, aprender a lidar com meus desafios — nasce desse mesmo lugar:
de uma vontade de compartilhar o que sei e, nesse movimento, aprender o que ainda não sabia.
Não quero transformar conhecimento em vitrine.
Quero transformar vitrines em pontes, em conexões.
E talvez seja isso o que o professor Pequi vem me ensinando o tempo todo:
que o verdadeiro best-seller é o best Cia —
aquele que nasce quando o “eu” se encontra com o “outro” e ambos voltam maiores do que chegaram.


