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Amelina Chaves e a poesia que o tempo não levou - Rede Gazeta de Comunicação

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Amelina Chaves e a poesia que o tempo não levou

Escritora, poeta e professora, homenageada entre os 40 nomes que ajudaram a construir a história do festival deixou mais de 30 livros e uma obra marcada pela literatura infantil, pelo cancioneiro popular e pelo sertão

Há pessoas que permanecem na memória de uma cidade mesmo depois de partirem. Algumas ficam nas fotografias antigas, outras nos livros, nas histórias contadas por quem conviveu com elas ou simplesmente naquela lembrança boa que aparece de repente, como quem abre uma gaveta e encontra uma carta antiga.

Amelina Fernandes Chaves é uma dessas pessoas.

Às vésperas de completar 40 anos, o Festival Nacional de Poesia Psiu Poético presta homenagem a 40 poetas que ajudaram a construir a trajetória do movimento. Entre os nomes lembrados está o de Amelina, escritora, poeta e professora que deixou uma contribuição importante para a literatura e para a cultura do Norte de Minas.

Amelina morreu em 2024, aos 93 anos. Nascida em 1931, na zona rural de Capitão Enéas, viveu uma trajetória ligada às letras, à educação e à cultura popular. Também dedicou parte da vida à costura, atividade que, de certa maneira, combina com a própria imagem de sua literatura: juntar pedaços, aproximar histórias e transformar pequenas lembranças em algo capaz de atravessar o tempo.

Ao longo da vida, Amelina escreveu mais de 30 livros. Sua produção percorreu diferentes caminhos, passando pela literatura infantil, pelos contos românticos e pela poesia. Entre as obras estão “Mini, a boneca de pano” e “Diário de um Marginal”.

Em seus textos, aparecem temas como a sensibilidade, a paixão, a solidão, a vida e o sertão. Era uma escrita que não precisava buscar longe aquilo que já estava ao redor. O cotidiano, as pessoas, as emoções e a cultura popular ofereciam matéria-prima suficiente para construir histórias.

E havia também uma preocupação especial com a literatura infantil e com o cancioneiro popular.

Quem escreve para criança ajuda a plantar o futuro. Quem preserva uma cantiga ajuda a guardar o passado. Amelina transitou por esses dois caminhos, mantendo viva uma relação com a memória cultural que é tão característica do Norte de Minas.

Sua história remete a um sertão de outros tempos, de conversas demoradas, quintais grandes, crianças brincando na rua e histórias que passavam de uma geração para outra. Um tempo em que um livro emprestado circulava entre amigos, uma poesia podia ser decorada e uma cantiga sobrevivia porque alguém fazia questão de ensiná-la.

É nesse território de lembranças que a obra de Amelina continua encontrando lugar.

A homenagem do Psiu Poético, portanto, ganha um significado especial. Ao completar quatro décadas, o festival olha para sua própria história e recupera nomes de pessoas que ajudaram a fazer da poesia uma presença permanente na vida cultural de Montes Claros.

Amelina está entre esses 40 nomes.

O festival, produzido pelo Grupo de Literatura e Teatro Transa Poética, chega a 2026 com o slogan “40 anos de poesia, voz e resistência” e está programado para ocorrer entre os dias 3 e 12 de outubro, em Montes Claros.

Quarenta anos significam muito mais do que uma data no calendário. Significam uma caminhada feita de versos, encontros, livros, apresentações, conversas e, sobretudo, pessoas. Algumas continuam presentes; outras ficaram apenas na memória. Mas todas, de alguma maneira, ajudaram a escrever essa história.

Amelina é uma dessas presenças.

Sua morte encerrou uma trajetória de vida, mas não encerrou sua obra. Cada livro permanece como uma porta aberta para reencontrar a escritora. E, por essas portas, o leitor pode encontrar a infância, o amor, a solidão, a delicadeza, a vida e as paisagens do sertão.

A saudade tem esse jeito curioso de trabalhar. Aperta o peito, mas também devolve aquilo que parecia distante.

Devolve uma voz.

Uma história.

Um nome.

Uma lembrança.

No caso de Amelina Chaves, devolve também uma parte da literatura que ajudou a formar a identidade cultural do Norte de Minas.

Porque o sertão não está somente na terra rachada pela seca, na sombra de uma árvore ou no horizonte comprido. Está também na palavra, na cantiga, no causo, na memória e na maneira de contar uma história.

Foi esse sertão que Amelina levou para seus livros.

E é esse legado que o Psiu Poético ajuda a reencontrar quatro décadas depois de sua primeira caminhada.

Quando o festival abrir novamente suas portas em outubro, alguns dos homenageados não estarão mais entre nós. Não estarão nas rodas de conversa nem poderão autografar seus livros.

Mas estarão de outra maneira.

Nos versos.

Nas páginas.

Nas lembranças.

Na saudade.

Amelina será uma dessas presenças.

Porque o tempo passa, as cidades mudam e as pessoas partem. Mas certas palavras criam raiz. E, como uma árvore antiga do sertão que espera a chuva para mostrar que continua viva, a poesia também sabe esperar.

Quando a memória chama, ela brota novamente.