A escola de samba Acadêmicos de Niterói, que prestou uma homenagem inusitada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no desfile do Carnaval do Rio de Janeiro 2026, foi oficialmente rebaixada do Grupo Especial para a Série Ouro, após terminar na última colocação da apuração realizada na tarde desta quarta-feira (18), na Cidade do Samba, na Zona Portuária do Rio de Janeiro.
A derrota encerra a participação da agremiação na elite do carnaval carioca e confirma seu regresso à segunda divisão das escolas de samba em 2027. Na classificação final, a Acadêmicos de Niterói obteve 264,6 pontos, ficando atrás de todas as demais concorrentes, incluindo a Mocidade Independente de Padre Miguel, que somou 267,4 pontos, e outras grandes agremiações tradicionais.
Enredo polarizador e notas mistas
O enredo da escola neste ano, intitulado “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, trouxe para a Marquês de Sapucaí uma narrativa sobre a trajetória de vida do presidente Lula — desde sua origem humilde no interior até a chegada ao Palácio do Planalto, celebrando suas conquistas políticas e sociais.
A homenagem, inédita na história do carnaval carioca por abordar diretamente um presidente em exercício em ano eleitoral, gerou debates intensos na mídia e entre carnavalescos. Mesmo assim, a agremiação recebeu nota 10 no quesito samba-enredo — um reconhecimento à composição musical que exaltou a figura e a história de Lula — mas não conseguiu elevar suas pontuações nos demais itens avaliados, como evolução, fantasia, alegorias e harmonia, o que comprometeu a média final.
Desempenho técnico e desafios na avenida
Segundo analistas e jurados, a Acadêmicos de Niterói enfrentou dificuldades técnicas ao longo dos três dias de desfile — domingo, segunda e terça de carnaval — que foram determinantes para o resultado final. Os principais problemas identificados envolvem falhas de organização, falta de impacto visual em fantasias e alegorias, e deficiências na fluidez do desfile.
Em um dos pontos mais citados, o último carro alegórico teria passado pela avenida com problemas mecânicos, prejudicando o cronograma de evolução dos carros e gerando penalidades — fatores que, somados às notas baixas nos quesitos de harmonia e evolução, contribuíram para a colocação desfavorável da escola.
Reações e polêmica política
A escolha do enredo repercutiu nacionalmente muito antes da apuração oficial. No início de fevereiro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) autorizou a participação da Acadêmicos de Niterói com o tema sobre Lula, ressaltando que não se tratava de um “salvo-conduto” para propaganda eleitoral, mas respeitando a liberdade artística e cultural das escolas de samba.
Essa decisão judicial e a própria presença da homenagem dentro do maior espetáculo cultural brasileiro provocaram debates políticos intensos — alguns críticos alegaram que a exaltação de um presidente em exercício em ano de eleição poderia configurar publicidade eleitoral antecipada, enquanto defensores destacaram a tradição do carnaval de representar aspectos sociais e culturais da vida nacional.
Além disso, a presença de figuras relacionadas à política nos desfiles, o uso de simbologias e referências ligadas ao atual cenário eleitoral e a própria figura de Lula no Sambódromo atraíram atenção de juristas, comentaristas e setores da imprensa nos dias que antecederam a apuração.
Resultados gerais e perspectivas
A escola Unidos do Viradouro foi consagrada campeã do carnaval carioca de 2026, conquistando o Estandarte de Ouro e mantendo seu lugar de destaque entre as grandes agremiações. Outras escolas tradicionais como Beija‑Flor de Nilópolis e Unidos de Vila Isabel também figuraram entre as melhores classificadas, garantindo vaga no desfile das campeãs no próximo fim de semana.
O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói representa um ponto de reflexão para os carnavalescos e dirigentes da escola, que devem reavaliar suas estratégias artísticas e técnicas para buscar, no próximo ano, uma recuperação na Série Ouro e novo acesso ao Grupo Especial.


