A primeira oficina a gente sente por dentro - Rede Gazeta de Comunicação

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A primeira oficina a gente sente por dentro

Adelaide Valle Pires

Psicóloga por formação, arqueóloga de coração

Acordei ainda processando a oficina literária de ontem.

Dizem que a primeira a gente nunca esquece — e talvez seja verdade.

À noite, fiquei olhando para as minhas Três Marias da lenda vietnamita, ali no quadro do meu quarto.

Elas têm um jeito curioso de me observar, como se perguntassem:

— E então… o que você descobriu hoje?

E, ao caminhar pela casa, meus olhos pararam também na minha mini-árvore de livros — casca verde, polpa dourada, amêndoa prateada.

Ela nasceu do meu jeito de ver o Natal: camadas que protegem, iluminam, revelam.

A oficina de ontem combinou perfeitamente com isso — porque mexeu nas camadas da memória.

Quando o professor perguntou qual era o significado do Natal para cada um, eu não disse nada.

Mas o meu silêncio andou sozinho até a infância, onde o Natal sempre teve cheiro de crianças.

Mais tarde, quando os filhos viraram adolescentes e a família parecia pequena demais, o Natal perdeu um pouco da graça.

Só voltou a brilhar quando chegaram os netos.

A infância traz a luz de volta — até hoje acho isso.

E talvez tenha sido por isso que me tocou tanto ouvir que, em outras épocas, a infância quase nem existia.

Porque quando olhei o que escrevi depois da oficina, percebi uma coisa bonita:

no meu primeiro conto, quem muda a história é uma criança.

Não um adulto sábio, não alguém de capa brilhante — uma criança com um novo olhar.

Talvez seja assim que o Natal se comporta comigo:

volta para me ensinar o que a vida adulta esquece.

E a escrita acompanha:

dialogando com minhas memórias,

divertindo a curiosidade,

e me desenvolvendo por dentro —

no meu ritmo, no meu DDD.

Acho que foi isso que acordei sentindo hoje.