Adelaide Valle Pires
Psicóloga por formação, arqueóloga de coração
Pensando na Arena da Comunicação, me lembrei de um personagem que sempre me emociona: o cataDOR de pequi.
Há gente que escuta com palavras; ele escuta com presença.
Foi então que uma lembrança antiga acendeu outra: a cena de uma série em que a protagonista pergunta a uma mulher:
“Você poderia ser a minha floresta de bambu?”
E a resposta vem leve, firme, quase um abraço:
“Claro. Não se preocupe com nada. Grite: ‘o rei tem orelhas de burro’.”
Curiosa, fui atrás de entender esse grito.
Descobri o conto tradicional português do rei que escondia suas orelhas diferentes e do barbeiro que, sufocado pelo segredo, cava uma cova num vale para desabafar sem ser punido.
Ele fala, a terra escuta, o peso sai — e no lugar nasce um canavial, como se a natureza devolvesse leveza ao que um dia foi angústia.
E então compreendi melhor a frase da série:
a floresta de bambu é o lugar seguro onde a palavra pode se dobrar sem quebrar.
Onde desabafar não vira perigo nem julgamento — vira alívio.
Onde o outro não tenta resolver, corrigir ou interpretar: apenas acompanha.
Talvez seja isso que o cataDOR de pequi representa:
a presença que escuta como terra, como bambu, como vale que acolhe o que pesa até virar vento.
E, pensando bem, lembrei do bambuzal que tinha no sítio.
Quando o vento batia, o som que surgia parecia justamente isso:
um suspiro que encontra saída, um grito que se dissolve no ar.
E você —
tem alguém que é sua floresta de bambu?
Ou anda precisando plantar uma?


