João Pedro Issa
Estudante de ciências sociais.
Era mais um dia comum em Washington D.C., cidade acostumada às canetadas, ao planejamento e a ser protagonista de decisões de impacto global. Washington é o Vaticano ou a Meca do mundo moderno. Dessa vez, porém, a capital americana foi palco de uma decisão que, diferente das suas resoluções políticas — que só geram palpites em canais de geopolítica no YouTube , essa sim é comentada com maestria absoluta pelos tiozões do boteco: o sorteio dos grupos da Copa do Mundo. A aura de Washington, aliada à entidade suprema do futebol moderno : a FIFA, essa deusa moderna de terno caro e sotaque suíço , deu a esse sorteio o peso que a missa de domingo tem para as senhoras do interior do Brasil.
Lá estava o Brasil, pentacampeão eterno, cabeça de chave do Grupo C, enfrentando Marrocos, Escócia e Haiti. Esse grupo não é apenas o acaso litúrgico de Washington nem uma coincidência futebolística. Esse grupo é um grande arquétipo civilizacional que tem o futebol como palco para uma Cruzada.
O Marrocos, a grande muralha islâmica, a seleção que faz jejum no Ramadã e reza antes de entrar em campo, tem a chance de enfrentar duas civilizações antagônicas: a Escócia protestante e o Brasil — que, por um erro de percurso histórico, acabou nas mãos dos portugueses, mas que, se o domínio muçulmano durasse mais uns séculos, poderia muito bem ser o Braquistão. A Escócia, só pelo nome já carregando ar aristocrático, uísque e a ética protestante de Weber, não é favorita, mas é aquele primo distante que você encontra na ceia de Natal: você não conhece muito, mas sente uma simpatia inexplicável (talvez pela organização). O Haiti… coitado dos nossos irmãos caribenhos, ainda se recuperando da crise humanitária, mas com seleção na Copa: se chegar nas oitavas a gente já solta fogos. E por último, mas não menos importante: o Brasil.
O nosso país é o arquétipo da pura alegria. O brasileiro tem duas religiões: a missa das onze e o futebol à tarde. O futebol é a liturgia laica no Brasil; o gol é o orgasmo coletivo. Se Marx fosse brasileiro, teria escrito que “o futebol é o ópio do povo”.
Não temos a organização e a elegância aristocrática da Escócia, nem um futebol usado como instrumento de santificação carnal como o marroquino, nem a superação das adversidades políticas como o Haiti. Mas temos o futebol como liturgia constante, que vai do sacro ao profano, do drible à falta. Aqui, o futebol é o verdadeiro Absoluto: une a favela ao palácio muito mais do que qualquer programa de distribuição de renda do governo federal. O arquétipo da seleção brasileira é o mais refinado, pois não guarda ressentimento históricos, só guarda a lembrança de seus ídolos. No fim, o Brasil entra em campo como sempre: não para jogar futebol, mas para jogar destino.


