Anny Duarte
Escritora e Diretora escolar
Pensar por conta própria tornou-se uma das mercadorias mais raras do nosso tempo. Vivemos afogados em um oceano de vídeos curtos, frases fora de contexto, algoritmos manipuladores e opiniões sem qualquer fundamento real — muitas vezes formuladas com o intuito deliberado de ferir, cancelar ou prejudicar o outro. Essa dinâmica rasa retirou da população o senso crítico necessário para debater, ouvir e discordar de forma adulta, madura e consciente. Transformamo-nos na versão moderna daquela velha expressão dos nossos avós: uma sociedade de “maria vai com as outras”, onde alguém dita uma narrativa e uma multidão a replica, sem sequer checar a veracidade dos fatos ou refletir sobre o impacto do que está espalhando.
As consequências dessa irresponsabilidade são devastadoras. Quantas vidas, famílias, carreiras e casamentos foram arruinados por boatos, difamações e falsas notícias? O custo mais alto, no entanto, tem sido cobrado na moeda da saúde mental. Falamos constantemente sobre empatia e responsabilidade emocional, mas a prática escancara uma hipocrisia dolorosa. O Setembro Amarelo serve como o maior exemplo dessa desconexão: durante trinta dias, as redes sociais se enchem de fitas amarelas, mensagens de apoio e discursos bonitos. Nos onze meses seguintes, o que se vê é a ausência completa de conduta adequada, com linchamentos virtuais e crueldade cotidiana. De nada adianta erguer uma bandeira por um mês se, no restante do ano, continuamos sendo o agente que adoece o próximo.
Essa falta de empatia reflete o esquecimento de um dos princípios mais universais e indissociáveis da convivência humana: “amar ao próximo como a si mesmo”. Perdeu-se a referência. O reflexo disso está estampado nos ambientes de trabalho, cada vez mais tóxicos e adoecidos — não pela carga de tarefas em si, mas pela convivência com pessoas emocionalmente feridas que, incapazes de encarar as próprias frustrações, passam a ferir os outros, terceirizando a culpa e enxergando ameaça até no olhar de um colega. Pessoas doentes adoecem pessoas, alimentando um ciclo vicioso que precisa ser interrompido com urgência.
Essa cegueira coletiva ganha contornos ainda mais graves no cenário político, que frequentemente antecede as campanhas de conscientização. Por votos, cargos e poder, presencia-se o assassinato de reputações e o desrespeito à dignidade alheia. Do outro lado, parte da população, usando uma verdadeira viseira social, consome migalhas e narrativas prontas sem perceber a dimensão real das coisas. Ocorre, por exemplo, de vermos a nossa própria cidade crescer e evoluir diariamente, enquanto muitos permanecem cegos aos fatos, presos ao próprio umbigo e reféns do que consomem na tela do celular, incapazes de reconhecer o avanço ao seu redor.
A saúde mental precisa ser uma pauta permanente, e não um evento do calendário. É de extrema necessidade reestruturar nossa sociedade sobre as bases da personalidade, da busca pelo conhecimento factual e do distanciamento consciente das fake news. Precisamos resgatar a capacidade de olhar para o mundo com criticidade, maturidade e, acima de tudo, humanidade. Somente quando voltarmos a pensar por nós mesmos seremos capazes de estancar o ciclo de dor que temos provocado uns nos outros.


