Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Da invasão soviética do Afeganistão ao 11 de Setembro, uma sequência de decisões políticas, militares e estratégicas mostra como conflitos aparentemente distantes podem produzir consequências décadas depois.
Há acontecimentos que parecem nascer diante das câmeras de televisão, mas a História raramente respeita o tempo das manchetes. Quando um fato chega ao mundo, suas raízes quase sempre estão fincadas décadas antes, em decisões políticas, disputas ideológicas, interesses econômicos e guerras que pareciam distantes da vida da maioria das pessoas.
Ao recordar os 25 anos do 11 de Setembro, a pergunta que me interessa, como jornalista, não é apenas o que aconteceu naquela manhã. É outra: como o mundo chegou até aquele 11 de setembro?
Essa inquietação aumentou depois de assistir à recente série documental sobre os atentados. Mais do que relembrar a tragédia, ela provoca uma reflexão: nenhuma história começa exatamente onde imaginamos que começou.
Nasci em 1978, um ano antes da invasão soviética do Afeganistão. Cresci, ainda sem compreender completamente, a Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim, o fim da União Soviética, a Guerra do Golfo e tantas transformações que pareciam acontecimentos isolados.
Hoje percebo que não eram.
Foi somente muitos anos depois que compreendi algo fundamental: a História não costuma produzir acontecimentos isolados. Ela constrói processos. E meu fascínio pelos documentários me deixa ainda mais encantada com o papel do jornalista e com sua importância, muitas vezes pouco lembrada e, não raro, criticada. É o jornalista quem aparece, acompanha, registra e, muitas vezes, corre riscos para documentar os processos históricos, permitindo que a informação chegue às pessoas e que esses acontecimentos permaneçam registrados para as próximas gerações.
E são esses processos, muitas vezes silenciosos, que moldam o futuro.
Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão. Os Estados Unidos, interessados em enfraquecer Moscou, apoiaram a resistência afegã. Armas, dinheiro e treinamento chegaram aos grupos que combatiam os soviéticos. A lógica da Guerra Fria era simples: o inimigo do meu inimigo pode ser meu aliado.
Mas o que acontece com esses aliados quando a guerra termina?
A União Soviética saiu em 1989. A Guerra Fria acabou. Os grupos armados permaneceram. O Afeganistão mergulhou em novos conflitos, enquanto Osama bin Laden e a Al-Qaeda ganhavam espaço. Posteriormente, o Talibã assumiria o poder e ofereceria abrigo à organização terrorista.
Não significa dizer que os Estados Unidos criaram a Al-Qaeda. Isso seria simplificar a História. Mas significa reconhecer que decisões tomadas para enfrentar um adversário podem produzir consequências inesperadas.
É o chamado blowback, o efeito rebote: uma ação de política externa destinada a resolver um problema pode ajudar a criar outro, anos depois.
Há ainda uma característica recorrente da política americana: a disposição de entrar em territórios marcados por guerras e crises para defender aliados, conter ameaças ou tentar reorganizar o cenário. Em alguns casos, havia pedidos de ajuda. Em outros, interesses estratégicos. Muitas vezes, os dois.
Foi assim em diferentes momentos da Guerra Fria. Foi assim no Kuwait, quando Saddam Hussein invadiu o país em 1990 e os Estados Unidos lideraram uma coalizão para expulsar as tropas iraquianas. O petróleo fazia parte do cálculo estratégico, mas reduzir aquela guerra simplesmente a uma disputa por petróleo também seria insuficiente.
E então veio 11 de setembro de 2001.
Os aviões atingiram as Torres Gêmeas e o Pentágono. A guerra que os Estados Unidos travavam longe de seu território chegou ao coração do país.
Em 18 de setembro, o Congresso aprovou a AUMF, autorizando o presidente George W. Bush a empregar força contra os responsáveis pelos ataques e aqueles que os abrigavam ou apoiavam. Em outubro, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão.
A ironia histórica é difícil de ignorar: o mesmo território onde Washington havia apoiado forças contra a ocupação soviética agora recebia tropas americanas para combater a Al-Qaeda e o Talibã.
Depois veio o Iraque, em 2003. Saddam Hussein caiu, as alegadas armas de destruição em massa não foram encontradas e o país mergulhou em instabilidade. Anos depois, naquele ambiente, o Estado Islâmico encontraria espaço para crescer.
Outra vez, o efeito rebote.
Minha intenção não é transformar americanos em vilões, extremistas em vítimas ou explicar décadas de conflitos por uma única causa. É justamente o contrário.
É perguntar quanto custa ser o herói permanente do mundo.
Custa bilhões. Custa vidas. Custa desgaste político. Custa sofrimento humano. E pode custar consequências que atravessam gerações.
Quando uma nação é atacada, o patriotismo cresce. A bandeira ganha força, o soldado vira herói e a guerra pode ser apresentada como missão. Mas, no meio dessa narrativa, às vezes desaparecem perguntas fundamentais: quanto estamos gastando? O que estamos conseguindo? E quais serão as consequências daqui a vinte anos?
Eu tinha dois anos quando a União Soviética entrou no Afeganistão. Cresci enquanto aquela história avançava. Já adulta, vi as Torres Gêmeas desaparecerem diante dos olhos do mundo.
Naquele dia, parecia que a História havia começado.
Hoje, 25 anos depois, sei que não.
Ela já estava acontecendo havia muito tempo.
Porque guerras podem terminar nos calendários, nos discursos e nos mapas. Mas suas consequências continuam caminhando.
E talvez essa seja a principal lição do 11 de Setembro: a História raramente começa onde as manchetes dizem que começou — e quase nunca termina quando os governos anunciam que acabou.


