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EDITORIAL — MULHERES NO COMANDO: Quando a mulher chega ao comando, o sertão inteiro escuta - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL — MULHERES NO COMANDO: Quando a mulher chega ao comando, o sertão inteiro escuta

Paula Pereira

Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing

Três mulheres à frente das forças de segurança de Minas se encontram para falar de violência, proteção e liderança — uma conversa que precisa sair dos palcos e chegar às ruas.

No sertão, a gente aprende cedo que certas coisas não se resolvem no grito. Resolvem-se na firmeza. No olhar que não baixa. Na mão que segura outra mão quando o mundo parece grande demais. Há mulheres que sabem disso desde sempre. Mulheres que levantam cedo, enfrentam a estrada, cuidam dos seus, atravessam tempos ruins e, quando a vida aperta, ajeitam o pano da cabeça e seguem.

Talvez por isso tenha alguma coisa de bonita — e também de histórica — na notícia de que três mulheres estarão reunidas, pela primeira vez, no mesmo palco, ocupando os comandos das três principais forças de segurança pública de Minas Gerais.

Não é apenas uma fotografia para guardar.

É uma paisagem nova.

A comandante-geral da Polícia Militar, a chefe da Polícia Civil e a comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar vão se sentar para conversar sobre liderança feminina, prevenção da violência contra a mulher, investigação, proteção e os caminhos para fazer as instituições trabalharem juntas.

O encontro acontece nesta quinta-feira (10), em Nova Lima, durante a Semana do Ministério Público de Minas Gerais, que este ano escolheu um tema que parece simples, mas carrega o peso de uma obrigação: “Seus Direitos, Nosso Dever”.

Direito, no entanto, não pode ser igual chuva que ameaça e não molha o chão.

Tem que chegar.

Tem que alcançar a mulher que está atrás de uma porta fechada, a menina que sente medo, a mãe que procura ajuda, a vítima que já cansou de explicar o que aconteceu. Tem que chegar antes que a ameaça vire agressão, antes que a agressão vire tragédia.

Porque a violência contra a mulher também aprendeu novos caminhos.

Antigamente, havia a ameaça dita no ouvido. Hoje ela pode chegar pela tela do telefone, de madrugada, em uma mensagem curta. Pode vir em forma de perseguição, exposição, chantagem, controle. A tecnologia mudou o mundo, mas não mudou a vontade de alguns homens de mandar na vida das mulheres.

E é aí que a conversa entre as forças de segurança ganha importância.

No papel, cada instituição tem sua atribuição. Na vida real, a dor da vítima não vem dividida por departamentos.

Ela chega inteira.

Por isso, Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros, Ministério Público e toda a rede de proteção precisam aprender a caminhar como quem conhece uma estrada de terra: olhando o caminho, prestando atenção nas curvas e sabendo que, se um veículo atola, ninguém chega ao destino sozinho.

É essa integração que pode fazer diferença.

Também é importante olhar para o fato de que três mulheres ocupam hoje os comandos máximos dessas instituições. Durante muito tempo, o poder nas áreas de segurança tinha quase sempre voz masculina, rosto masculino, jeito masculino de ocupar a mesa.

Agora há outras vozes.

E não se trata de dizer que mulher é melhor que homem. Não é disso que se fala. Trata-se de reconhecer que uma sociedade inteira precisa estar representada nos lugares onde as decisões são tomadas.

Mulher também manda.

Mulher também decide.

Mulher também enfrenta.

E mulher também sabe que proteger uma vida não é apenas cumprir uma ocorrência. É entender que, por trás de cada número de estatística, existe uma casa. Uma mãe. Uma filha. Um filho. Uma história que não cabe em formulário.

O podcast “Ela Tem o Que Falar”, promovido pelo MPMG, coloca justamente essa voz no centro da roda. Participam Reyvani Jabour Ribeiro, procuradora-geral de Justiça adjunta jurídica do MPMG; Denise Guerzoni, coordenadora do CAOVD/MPMG; Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues, comandante-geral da PMMG; Letícia Baptista Gamboge Reis, chefe da Polícia Civil; e Jordana de Oliveira Filgueiras Daldegan, comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar.

Mas tomara que a conversa não termine quando os microfones forem desligados.

Porque o Brasil já tem conferência demais, discurso demais, fotografia demais e proteção de menos.

A mulher que pede socorro não quer saber quem vai aparecer na fotografia. Quer que alguém apareça na porta.

Quer ser ouvida.

Quer ser protegida.

Quer voltar para casa.

No Norte de Minas, onde o sol castiga e a distância muitas vezes é maior que a estrada, a gente conhece bem o valor de uma mão estendida na hora certa. É como água de pote em dia de calor: não faz barulho, mas salva.

Segurança pública também precisa ser assim.

Presente. Próxima. Humana.

Que essas três mulheres no comando possam representar mais do que uma coincidência bonita deste tempo. Que representem a possibilidade de uma segurança pública que enxergue melhor, escute mais e responda antes.

Porque há mudanças que começam discretas, como uma vereda aberta no meio do mato.

Primeiro passa uma pessoa.

Depois outra.

Até que, quando a gente percebe, virou caminho.

E talvez seja isso que esteja acontecendo agora.

Elas chegaram ao comando.

Agora é preciso abrir caminho para que muitas outras mulheres possam passar.