Descrição da imagem
Do PPP ao CCC | Comunicação, interpretações e mensagens perdidas - Rede Gazeta de Comunicação

PUBLICIDADE

Do PPP ao CCC | Comunicação, interpretações e mensagens perdidas

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Há alguns dias comecei uma reorganização aqui em casa. Mudar móveis de lugar, trocar quadros de parede, instalar cantoneiras. Uma espécie de revisão de texto feita com paredes, parafusos e objetos.

Para isso, chamei o Valdir, que fez uma parte do serviço e ficou de voltar para terminar o restante.

Só que os dias foram passando.

Um dia recebi um áudio dele dizendo que só poderia andar a partir do dia seguinte.

Pronto.

Minha preocupação já acendeu.

Depois veio outro áudio.

Pelo que eu entendi, ele estava com PFP.

E foi aí que minha cabeça entrou em parafuso.

Como assim só poderia andar a partir de amanhã?

O que aconteceu?

Foi acidente?

Foi cirurgia?

E, principalmente, que trem era esse tal de PFP?

Confesso que fiquei mais preocupada em decifrar a sigla do que com o próprio serviço.

Se pelo menos ele tivesse dito PQP, seria muito mais fácil de entender.

Mas não.

Era PFP. Ou pelo menos foi o que eu entendi.

Enquanto isso, fui fazendo o que estava ao meu alcance. Afinal, esperar não organiza a casa de ninguém.

Hoje, quando eu já nem pensava mais no assunto, a campainha tocou.

Era uma funcionária do condomínio trazendo um monte de correspondências antigas que estavam esquecidas na portaria.

Tinha carta de antigo morador, convite de casamento de 2023 e outros papéis que pareciam ter vindo no lombo de uma tartaruga.

Fiquei pensando que aquilo também era um problema de comunicação.

Porque, se a correspondência precisava ser buscada, alguém precisava avisar.

Mensagem guardada também é mensagem perdida.

Mal terminei de separar os papéis quando a campainha tocou novamente.

Abri a porta.

De trás dela surgiu uma figura meio escondida.

— É o fantasma!

Era o próprio Valdir.

Entrou sorrindo e a primeira coisa que perguntei foi:

— Antes de qualquer serviço, me explica uma coisa: o que é PFP?

Ele caiu na risada.

— Não é PFP, não. É PPP.

— E o que é PPP?

— Problemas, problemas e problemas.

Só então entendi.

Naquele instante lembrei de uma palestra que ouvi dias atrás sobre outro PPP: paciência, paciência e paciência.

Paciência comigo.

Paciência com aquilo que não controlo.

Paciência com o outro.

E fiquei pensando que a vida talvez aconteça justamente entre esses dois PPPs.

Porque problemas todo mundo tem.

Problemas comigo.

Problemas com aquilo que foge à minha vontade.

Problemas com os outros.

Mas talvez existam também três caminhos para atravessá-los:

Confiança.

Comprometimento.

Comunicação.

Afinal, comunicação não é apenas o que alguém diz.

Comunicação também é o que o outro entende.

O Valdir falou PPP.

Eu ouvi PFP.

E, a partir daí, construí uma história inteira dentro da minha cabeça.

Mas a comunicação também falha quando a mensagem nem chega ao destinatário.

Como aquelas correspondências esquecidas na portaria.

Uma mensagem pode se perder de dois jeitos: quando não é entregue ou quando é entendida de forma diferente do que foi dita.

No fim, o fantasma apareceu, as cantoneiras saíram do papel, as correspondências encontraram seu destino e a sigla foi finalmente traduzida.

E eu descobri que, às vezes, a maior reorganização não acontece dentro de casa.

Acontece dentro das nossas interpretações.

Talvez seja esse o caminho do PPP ao CCC.