O cheiro de comida caseira, o colorido do artesanato e o movimento constante de consumidores têm redesenhado o cenário do comércio em Montes Claros, no Norte de Minas. As feiras livres, antes vistas como alternativas pontuais, vêm se consolidando como importantes motores de geração de renda, inclusão produtiva e fortalecimento da economia local.
Espalhadas por diferentes bairros, como Jardim São Luiz, São José, Independência e Esplanada, essas feiras reúnem desde pequenos produtores até empreendedores que encontraram nesse modelo uma oportunidade concreta de sustento e crescimento. Um dos principais exemplos é a tradicional Feira da Carolina, realizada semanalmente na Praça da Rosa Mística, que chega a reunir cerca de mil pessoas a cada edição.
Criada em 2023 em homenagem a Carolina, mãe do fundador Geraldo Élcio, a iniciativa carrega também um histórico de atuação social, com foco no combate à pobreza e à desnutrição. Atualmente coordenada pelo empresário Emiliano José Gregori, a feira se tornou referência em organização e impacto econômico.
Segundo Gregori, o principal efeito das feiras livres está na geração direta de renda. Para muitos participantes, a atividade representa a principal fonte de sustento. “A proposta é fomentar a economia e ajudar essas pessoas a desenvolverem uma visão mais empresarial do próprio negócio, independentemente do tamanho”, afirma.
O acompanhamento próximo dos feirantes, com orientações sobre precificação, organização e diversificação de produtos, tem contribuído para a expansão dos negócios. Muitos empreendedores que começaram com uma única mercadoria hoje ampliaram seu portfólio, conquistando novos clientes e aumentando o faturamento.
Além do aspecto econômico, as feiras também cumprem um papel social relevante. Ao eliminar intermediários, aproximam produtores e consumidores, possibilitando preços mais acessíveis — especialmente em um cenário de alta nos alimentos.
A economista Vânia Vilas Boas, coordenadora do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Universidade Estadual de Montes Claros, destaca que esse modelo reduz custos e amplia o acesso a produtos frescos. “Muitos consumidores têm buscado alternativas mais baratas, e as feiras oferecem essa diversidade com preços mais competitivos, justamente pela ausência de atravessadores”, explica.
Ela ressalta ainda o impacto social das feiras, que funcionam como alternativa para trabalhadores com dificuldade de inserção no mercado formal. “As feirinhas fortalecem redes sociais, criam vínculos entre produtores e consumidores e contribuem para a segurança alimentar”, pontua.
Histórias que refletem transformação
Na prática, o impacto das feiras pode ser visto em histórias como a da empreendedora Raimunda Moreira. Há cerca de 20 anos trabalhando com produção de chips de batata, ela viu o negócio ganhar novo fôlego após começar a participar das feiras há cinco anos.
O início foi marcado por desafios, incluindo investimentos obtidos por meio de empréstimos informais e microcrédito. Com o tempo, a produção cresceu significativamente. Hoje, Raimunda e o marido processam cerca de 20 sacos de batata por semana, além de outros produtos como mandioca, banana, abóbora, inhame e batata-doce.
A diversificação surgiu a partir da demanda dos clientes e ganhou força com o apoio das redes sociais e o boca a boca. Atualmente, além das feiras, a venda ocorre por encomendas e fornecimento para bares, restaurantes e eventos.
“Já teve fase em que um saco de batata por semana era muito. Hoje a realidade é outra. As feiras abriram portas para a gente crescer”, relata.
Outro exemplo é o de empreendedores que recorreram ao microcrédito para estruturar seus negócios. Dados do Banco do Nordeste do Brasil mostram que, somente em 2025, cerca de 23,8 mil microempreendedores de Montes Claros tiveram acesso a financiamentos, somando mais de R$ 156 milhões. Em todo o estado, foram 128 mil clientes atendidos, com volume superior a R$ 821 milhões por meio do programa Crediamigo.
Segundo o superintendente estadual do banco, Wesley Maciel, o microcrédito é fundamental para fortalecer a base da economia. “Ele permite que pequenos produtores invistam, aumentem a produção e até incorporem tecnologia, como energia solar e sistemas de irrigação, ampliando a competitividade”, explica.
Expansão e impacto nos bairros
O crescimento das feiras também tem impacto direto nas comunidades onde são instaladas. No bairro Independência, por exemplo, a feira criada em 2025 já conta com cerca de 100 feirantes cadastrados e movimenta entre R$ 40 mil e R$ 70 mil por semana.
De acordo com o vice-presidente da associação local, Cleiton Moreira, o efeito vai além da renda direta. “A feira gera emprego, movimenta o comércio do bairro e ainda cria um espaço de convivência para as famílias. Antes, não tínhamos nada parecido aqui”, afirma.
A implantação de novas feiras segue critérios estabelecidos pela legislação municipal, que incluem a criação de associações, regulamentação junto ao poder público, definição de regras internas e análise da aceitação da comunidade.
Para especialistas e organizadores, o sucesso desse modelo está diretamente ligado à organização e ao acompanhamento dos feirantes. A padronização das barracas, a identidade visual e o suporte contínuo contribuem para transmitir credibilidade e atrair consumidores.
Um modelo em consolidação
Combinando geração de renda, inclusão social e fortalecimento da economia local, as feiras livres se consolidam como uma alternativa viável e crescente em Montes Claros.
Mais do que espaços de compra e venda, esses ambientes têm se transformado em pontos de encontro, cultura e empreendedorismo, mostrando que, mesmo em meio aos desafios econômicos, iniciativas comunitárias podem criar novas oportunidades e transformar realidades.



