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A coragem de morar na própria felicidade - Rede Gazeta de Comunicação

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A coragem de morar na própria felicidade

Adelaide Valle Pires

Autora

Outro dia, olhando para a palavra felicidade, algo curioso aconteceu.

De repente, ela se dividiu diante dos meus olhos:

feli

cidade

Cidade é lugar de viver.

Habitat.

Espaço onde a vida acontece.

Já o feli me levou a outro lugar.

Pensei no felino — aquele que caminha com uma coragem tranquila, quase silenciosa.

E então me ocorreu uma imagem:

talvez a felicidade seja justamente isso —

a cidade onde o nosso felino interior aprende a viver.

Mas, na prática, essa coragem nem sempre é tão simples.

Outro dia, assistindo a uma série, algumas cenas me fizeram pensar.

Em uma delas, um homem recém-viúvo conversa ao telefone com uma mulher que começa a fazer parte da sua vida.

Quando o filho entra no quarto, ele esconde o telefone e desliga rapidamente.

Não é falta de coragem.

É algo mais humano.

Mesmo sendo adulto, ele ainda parece precisar de algum tipo de aprovação para ser feliz.

Em outra cena, a filha conta que está saindo com alguém e pergunta ao pai:

— Tudo bem?

Curioso como, mesmo depois de adultos, ainda buscamos autorização para seguir vivendo a própria vida.

Mais adiante, um pai pergunta ao filho adolescente se pode trazer a namorada para casa.

Não como quem pede licença para existir, mas como quem deseja incluir.

E ali aparece uma pequena lição:

escolher nem sempre significa abandonar.

Às vezes, é só uma forma mais madura de permanecer em relação.

Mas há também o outro lado.

Em determinado momento, aquele mesmo homem — o viúvo do início — afirma com convicção:

— Eu tenho direito de ser feliz.

Há força nas palavras.

Mas pouco depois, ao encontrar um conhecido, ele solta a mão da mulher que estava ao seu lado.

Nada é dito.

Mas o gesto fala.

Foi ali que percebi algo simples:

dizer que queremos ser felizes é relativamente fácil.

Difícil, às vezes, é sustentar essa felicidade diante do olhar dos outros.

Porque o julgamento ainda pesa.

E, mesmo quando sabemos que temos direito de seguir, alguma parte de nós hesita.

Talvez por isso a felicidade não seja apenas um estado.

Seja também um lugar a ser ocupado.

Um espaço interno onde a gente aprende, aos poucos, a não se esconder.

A não soltar a mão da própria alegria quando alguém aparece.

No fundo, talvez seja isso:

a felicidade é a cidade…

e a coragem decide, ou não, morar nela.