Da menina à educadora que transformou vidas - Rede Gazeta de Comunicação

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Da menina à educadora que transformou vidas

Fátima Turano relembra perdas, superações e a construção de um legado na educação

PAULA PEREIRA

A trajetória de Fátima Turano é marcada por dor, coragem e determinação. Nascida no distrito de Granjas Reunidas, então ligado ao município de Bocaiuva, ela construiu ao longo das décadas uma história que se confunde com o desenvolvimento da educação privada em Montes Claros. Em entrevista, relembra a infância, a morte precoce do pai, as dificuldades financeiras e o ousado projeto de erguer uma instituição de ensino que se tornaria referência nacional.

Infância simples e feliz

Filha de um imigrante italiano e de uma professora primária, Fátima viveu os primeiros anos em meio ao ambiente operário da antiga Usina Malvina, empreendimento do grupo Matarazzo instalado na região. O pai, construtor, havia chegado ao Brasil durante a Segunda Guerra Mundial e se estabelecido no Norte de Minas para trabalhar nas obras da usina.

“Eu fui uma criança muito feliz. Meu pai era brincalhão, carinhoso, falava misturando português com italiano. Minha mãe era firme, professora dedicada”, recorda.

A estabilidade, no entanto, foi interrompida por dificuldades enfrentadas pela usina. A família acabou se mudando para Montes Claros, onde o pai abriu um pequeno comércio para sustentar a casa.

A perda que mudou tudo

Aos quase oito anos, Fátima enfrentou a maior dor da infância: a morte do pai, vítima de infarto, acabou sofrendo uma queda enquanto trabalhava. Ele chegou a ser internado em Belo Horizonte, mas não resistiu. A notícia chegou por telégrafo.

“Foi um choque. Nossa vida mudou completamente”, relembra.

A partir dali a mãe passou a sustentar a família com a aposentadoria de professora e a renda de um pensionato feminino que abriu para complementar o orçamento. A casa passou a abrigar estudantes vindas do interior para estudar em Montes Claros.

As dificuldades financeiras marcaram aquele período. “Aprendi a reaproveitar roupas, a trabalhar cedo, a ajudar em casa”, conta.

Educação como caminho

A escola tornou-se refúgio e motivação. Depois de repetir um ano em meio ao luto, Fátima encontrou incentivo em professores que a estimularam à leitura e à participação em atividades estudantis. O livro O Pequeno Príncipe tornou-se uma das referências afetivas da juventude.

Mais tarde, mudou-se para Belo Horizonte, onde cursou Pedagogia na Universidade Federal de Minas Gerais. Trabalhou como professora e supervisora escolar, consolidando a vocação pela educação.

Com a saúde da mãe fragilizada, decidiu retornar a Montes Claros — decisão que mudaria sua trajetória profissional.

O nascimento da escola

De volta à cidade, iniciou um projeto educacional com o apoio da irmã, do ex-marido, entre outros colaboradores, e, em parceria com o Colégio Pitágoras, fundou o Colégio Padrão. Começou com 79 alunos. O crescimento foi rápido, impulsionado pelo acompanhamento próximo dos estudantes e pela oferta de curso pré-vestibular.

Enfrentou, no entanto, conflitos internos e a saída de profissionais que fundaram uma escola concorrente. “Foi preciso recomeçar”, afirma.

Com recursos limitados, adquiriu um terreno na região do Ibituruna, até então pouco urbanizada, e iniciou a construção da nova sede. Pagava obras de forma parcelada, reinvestindo cada recurso arrecadado.

Desafios pessoais e preconceito

Além das dificuldades financeiras e administrativas, Fátima enfrentou o preconceito por ser mulher separada em uma época de maior conservadorismo social. “Havia comentários, julgamentos. Precisei me resguardar para proteger a escola”, relembra.

O apoio de pais de alunos foi decisivo para manter a credibilidade da instituição.

Expansão para o ensino superior

Durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, a legislação permitiu que instituições privadas ampliassem a oferta para o ensino superior. Fátima decidiu investir.

Sem capital disponível, utilizou a própria estrutura física como garantia e estruturou cursos com base em pesquisa realizada junto a estudantes da Universidade Estadual de Montes Claros. O projeto prosperou. Direito e Enfermagem tornaram-se cursos consolidados.

Projeto na Bahia

A expansão ultrapassou fronteiras estaduais. Por meio de edital do programa Mais Médicos, a instituição foi selecionada para implantar curso de Medicina em Guanambi. A estrutura foi construída, mas o processo enfrentou entraves administrativos e políticos antes da autorização definitiva.

Pandemia e reinvenção

Durante a pandemia, a instituição adotou modelo híbrido de ensino inspirado em experiência observada em Monterrey, no México. A adaptação tecnológica permitiu manter aulas e processos seletivos em formato virtual.

Venda da instituição e novo ciclo

Com a crise sanitária e econômica instaurada pela pandemia, os sócios optaram pela venda da faculdade. Sem condições de adquirir a parte dos parceiros, Fátima viu o ciclo se encerrar.

“Foi doloroso, adoeci, mas compreendi que a vida é feita de fases”, afirma.

Atualmente, mantém os prédios alugados, dedica-se à escrita e a atividades culturais. Também realiza ações solidárias de forma discreta, apoiando pessoas e instituições.

Um legado de resistência

Ao olhar para trás, Fátima resume a trajetória em uma palavra: coragem.

Da menina que perdeu o pai cedo à educadora que construiu uma instituição de referência, sua história é marcada por resiliência, fé e compromisso com a formação de gerações.

“A educação sempre foi minha missão. Se eu tivesse que recomeçar, faria tudo de novo”, conclui.