Montes Claros inova ao garantir subsistência para mulheres vítimas de violência doméstica - Rede Gazeta de Comunicação

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Montes Claros inova ao garantir subsistência para mulheres vítimas de violência doméstica

Uma iniciativa pioneira adotada em Montes Claros, no Norte de Minas, tem chamado a atenção por representar um importante avanço no combate à violência doméstica e na proteção das vítimas. Mulheres em situação de vulnerabilidade que sofrem agressões dentro de casa passaram a receber auxílio financeiro pago pelo próprio agressor, destinado à sua subsistência, após determinação judicial. A medida, considerada inédita no Brasil, tem como principal objetivo garantir autonomia mínima às vítimas e encorajá-las a denunciar casos de violência.

As informações foram apresentadas pelo sargento Wemerson Rafael, integrante do Grupamento de Proteção às Vítimas de Violência Doméstica da Polícia Militar de Minas Gerais, durante palestra realizada na noite de quarta-feira (5) no Lions Clube Montes Claros Sertanejo, em evento que marcou as comemorações pelo Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março.

Durante a apresentação, o militar destacou que a medida busca romper um dos principais obstáculos enfrentados por mulheres que sofrem agressões: a dependência financeira do agressor. Em muitos casos, segundo ele, a falta de recursos impede que a vítima deixe o ambiente de violência ou procure ajuda das autoridades.

“Essa iniciativa representa um avanço importante, porque muitas mulheres permanecem em relações abusivas justamente por não terem condições financeiras de se manter. Quando a Justiça determina esse apoio para a subsistência da vítima, cria-se uma rede de proteção que fortalece a decisão de denunciar”, explicou o sargento.

Aumento nas denúncias

Durante a palestra, Wemerson Rafael também apresentou dados estatísticos que mostram um crescimento no número de ocorrências de violência contra a mulher registradas em Montes Claros. De acordo com os dados da Polícia Militar, 3.350 casos foram registrados em 2024, enquanto em 2025 esse número subiu para 3.535 registros.

Apesar do aumento, o militar ressaltou que os números não necessariamente indicam crescimento da violência em si, mas sim maior encorajamento das vítimas para denunciar os agressores, fenômeno diretamente relacionado à aplicação da Lei Maria da Penha e ao fortalecimento da rede de proteção.

“A Lei Maria da Penha trouxe mecanismos importantes de proteção e punição, o que incentivou as vítimas a procurarem ajuda. Muitas situações que antes permaneciam ocultas hoje chegam ao conhecimento das autoridades”, afirmou.

Rede de proteção estruturada

Outro ponto destacado pelo comandante do grupamento foi o fato de Montes Claros possuir uma rede de proteção considerada referência na região para atendimento às mulheres vítimas de violência.

Entre os serviços disponíveis estão abrigo institucional para vítimas em situação de risco, Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, Grupamento da Polícia Militar voltado para violência doméstica, núcleo de defesa na Defensoria Pública, Centro de Referência de Atendimento à Mulher e suporte do Ministério Público.

Segundo o sargento, a integração entre essas instituições tem sido fundamental para garantir atendimento humanizado, acolhimento e orientação jurídica às vítimas.

“Quando a mulher decide denunciar, ela precisa encontrar uma estrutura preparada para apoiá-la. Em Montes Claros, temos avançado nesse sentido, com instituições que trabalham de forma integrada para oferecer proteção e acompanhamento”, destacou.

Horários com maior incidência

Os dados apresentados também revelam um padrão preocupante em relação ao horário das ocorrências. De acordo com as estatísticas da Polícia Militar, a maior concentração de casos acontece entre sexta-feira e domingo, principalmente após a meia-noite e nas primeiras horas da madrugada.

Esse cenário, segundo o sargento Wemerson Rafael, muitas vezes está associado ao consumo de álcool e a conflitos familiares que acabam evoluindo para agressões.

Reflexão na Semana da Mulher

A presidente do Lions Clube Montes Claros Sertanejo, Tânia Raquel Muniz, explicou que a realização da palestra durante a Semana da Mulher teve como objetivo promover reflexão sobre a violência doméstica e conscientizar a sociedade sobre a importância da prevenção.

Segundo ela, discutir o tema é fundamental para evitar que episódios de agressão evoluam para casos mais graves, como o feminicídio.

“A violência contra a mulher é um problema social que precisa ser enfrentado com informação, conscientização e união de esforços. Ao promover esse debate, queremos estimular a reflexão e fortalecer a rede de proteção às mulheres”, destacou.

Mobilização por Vara Especializada

Tânia Raquel Muniz também lembrou que, desde março de 2025, o Lions Clube iniciou um movimento em parceria com outras instituições para defender a criação de uma Vara Judicial Especializada em Violência contra a Mulher no Fórum de Montes Claros.

A proposta busca ampliar a agilidade no julgamento dos processos relacionados à violência doméstica e garantir maior especialização no atendimento às vítimas.

“Uma vara especializada representa um avanço importante, porque permite que esses casos sejam tratados com prioridade e com profissionais capacitados para lidar com essa realidade”, afirmou.

Homenagem às mulheres

Ao final do encontro, o Lions Clube Montes Claros Sertanejo realizou uma homenagem às mulheres integrantes da instituição, reconhecendo o trabalho e a contribuição de cada uma para as ações sociais desenvolvidas pelo clube.

O evento integrou a programação especial dedicada ao Dia Internacional da Mulher, reforçando a importância da valorização feminina e da luta contínua contra todas as formas de violência.

A iniciativa apresentada durante a palestra reforça que, além da repressão aos crimes, medidas que garantam proteção social e autonomia às vítimas podem representar um passo decisivo para romper o ciclo da violência doméstica.